14 outubro 2017

Passeio norturno



nas horas em que o silêncio
adormece o mundo
a noite me pega pela mão
e vou com ela velar os sonhos

na aragem fresca dos campos
sinto a paz dos animais na dormida
navego oceanos iluminados pela lua
flutuo no espaço entre mil estrelas

perpasso cidades, países, continentes
espreito becos onde a noite é triste
os desvalidos que a cidade recusa
vejo as mazelas da nossa humanidade
que a escuridão camufla mas o olhar denota

no comboio noturno vão amantes e artistas
os que se alimentam da insônia
pelo prazer de uma boa companhia
mas há também pobres homens
a quem a noite não dá repouso
porque lhes pesa na alma
algum malfeito ou ultraje

vejo ainda companheiros
no trabalho de vigília
zelando em seu mister
ouço choros, risos, sussurros
quebrando o silêncio da treva
pressinto sonhos e pesadelos
passo por noctâmbulos
por criaturas da noite
em seus rituais de caça

eis que um pequeno lume
ergue-se no horizonte
a aurora anuncia o sol
novo ciclo, renovação
a noite me diz bom-dia
recolhe seu manto estrelado
acorda o mundo suas cores
rumores e cantorias
e eu guardo a minha viagem
com muito cuidado no bolso
porque sei que a qualquer momento
toda essa inspiração
vai acabar no papel
em formato de poesia



12 outubro 2017

Meias encardidas



ah! essas meias encardidas
das crianças felizes!
depois de um dia de proezas
artes e brincadeiras
a empresa de uma mãe 
é limpar toda a sujeira

entre tanque e lata de lixo
a dúvida se dependura
lavar ou jogar fora?
que loucura pensa ela
esfregar um par de trapos
até chegar à brancura

mas as mães são persistentes
não se abatem facilmente
esfregam sabão, escovam
usam limão, água quente
as meias ficam meio limpas
e puídas, quase transparentes

passa o tempo, filhos crescem
e cuidam das próprias meias
mas no dia das crianças
o clima é de nostalgia
bagatelas esquecidas
voltam então à lembrança
o olhar mareia de saudade
daquelas meias encardidas




01 outubro 2017

Salvação



séculos pesam nos ombros
a aurora que deveria renovar a luz
se perde nos recessos da alma
ao som da Lacrimosa

que foi feito de ti?
preso aos tentáculos
dessa poesia abissal
que te devora como a um bicho

tua súplica 
tua salve-rainha
teu joelho esfolado
não te levarão ao céu

ah! se os anjos te ouvissem
talvez sussurrassem tua salvação
talvez te enviassem uma corda
que farias?

tua carne queima aqui
teu inferno é aqui
tua morte é aqui

o mergulho no breu
vim buscar-te
abraça teus monstros
respira
respira
respira

ressuscita





28 setembro 2017

Chronos


quem sabe a flor de nossos anos viva
enclausurada ou em uma redoma
no coração do tempo algoz sombrio
que guarda para si o doce aroma

quem sabe esse senhor azafamado
que cobra caro qualquer desperdício
seja invejoso dos pobres amantes
que roubam o tempo em seu benefício

eco disperso no grande oceano
do universo apenas pulsação
impõe ditame tão draconiano

não o procures na terra ou no céu
jamais o trates como anfitrião
ou ele te engole como troféu

19 setembro 2017

A arte é espelho


a arte é espelho
apresenta
acrescenta
a arte ultrapassa o sinal vermelho
a estética
a ética
e o reflexo incomoda
complexo
desconexo
o espelho provoca
o reflexo desloca
o vermelho condena
a moralidade
hipócrita
alucina
censura
queimem as bruxas
os hereges
os artistas

ora ora ora
senhores indignados
juízes da moral alheia
intérpretes mancos do espelho
soldados da verdade
só vejo uma solução
para o impasse da exposição:
proíbam a realidade!


02 setembro 2017

eu não queria o vento




eu não queria o vento
esse canto 
esse assobio
que me tira a calma

eu não queria o tempo
esse desencanto
esse desvio
que estremece a alma

talvez um outro vento
que viesse brando 
como carinho ou som de bandolim

talvez um outro tempo
que amputasse da memória essa aflição
de um vento que levou alguém de mim

22 agosto 2017

Carpe Diem


aproveite o dia
me dizem
antes que cheguem a diabetes
a pressão alta
o reumatismo

aproveite o dia
publicam nos jornais
enquanto os homens do poder 
matam criancinhas

aproveite o dia
me ordenam
e eu sigo regando meu jardim 
conforme aniquilam as florestas

aproveite o dia
gritam nas esquinas
porque a morte devora tudo
e eu me angustio 
com os poucos números do relógio

aproveite o dia
ensinam os outdoors
e eu aqui sentada rabiscando poemas
tomando café
e catando pulgas no gato
sem saber se amanhã
o mundo acaba


11 agosto 2017

Náusea


as mãos que assinam infortúnios são ásperas
os olhos, são de rapina
o coração perdeu-se entre as vísceras
o sangue alimenta-se de propina

seres sem alma e sem palma
indignos, perversos – que nojo!
sem ética e sem pudor, com calma
vão aniquilando um país e embolsando o despojo



03 agosto 2017

Um dia o homem foi pássaro


Um dia o homem foi pássaro. 
Dançava livre pelas estepes, corria alegre pelas planícies, cantava seu respeito ao sagrado.
Houve um tempo em que o homem ouvia a sabedoria do vento, dos mais velhos, da mãe Terra.
Entendia a língua das árvores e dos animais.
O pássaro foi aos poucos perdendo as penas e a alegria.

O sagrado foi deixado de lado.
O homem ficou surdo à sabedoria ancestral.
Foi gradualmente embaraçando-se em falsas ideologias e falsos profetas.
Seus olhos perdiam cada dia mais o brilho das estrelas.
Quanto mais se separava da natureza, mais doente ficava.
Deixou de adorar os deuses dos antepassados e passou a adorar papeis e pedaços de metal que trocava por coisas, muitas das quais nem precisava. E quanto mais tinha, mais queria.
Degradou a mãe Terra sem pensar nos que viriam após.
Alucinado, isolou-se em povoações onde há muitos homens agrupados, carregando por todo lado seus animais que pesam toneladas e envenenam o ar.
Esqueceu-se de quem era.

Um dia o homem foi pássaro. 
Vendeu sua liberdade, seu respeito, sua alegria.
Está enjaulado na gaiola que fez para si mesmo.


22 julho 2017

Manifesto


quero um poema cravado em pedra
forjado em ponta de lança candente
quero o rompante, ímpeto sem regra
raio que fere, maná que alimente

poema que não se escreve em seda
porque meu coração é hard rock
quero a palavra como labareda
e a ousadia de uma belle époque

que escorra da mão como fina areia
arda nos olhos e queime na pele
o som agudo que lateja a veia
vibra nos pelos e a boca expele

eu quero a verve e não rima anestésica
enigma, signo, palimpsesto
que enovele a língua e defronte a lógica
motim, desassossego, manifesto



18 julho 2017

Ainda é cedo



a morte passou pelos meus ossos
ouvi sua risada escancarada
senti a lambida no pescoço
o arrepio involuntário

ainda é cedo, pensei
não vai ser agora
ainda não vesti as melhores roupas
ainda não conheci todos os lugares
ainda não amei como deveria

a morte passou pelos meus ossos
e senti o gosto do eterno no céu da boca

ainda é cedo, pensei
para a minha liberdade


20 junho 2017

Letargia


da vertigem que me dão os sonhos inacabados
faço presente o dia que amanhece
levanto da cama minha cota de carbono
para que o tempo aos poucos esmoreça
a carne os desenganos as convicções
amando quanto posso
desvencilhando-me do que não posso
enfrento as ilusões do mundo
devo ter um chip implantado
que me conduz interminavelmente
a todas as questões filosóficas
quando poderia simplesmente
abraçar a vida sem fazer perguntas
lavar a louça e espanar o pó


05 junho 2017

Líquido e frágil

arte de Gaylord Ho

consumimos o tempo que nos foi dado no amor
como bala que se estilhaça entre os dentes
em vez de sorver vagarosamente o sumo
o beijo
o desejo
a vontade de devorar e habitar
alucinados
intoxicados
esquecemos de semear
os delírios
os sussurros
e os dias avançaram em deserto
ferrugem e vazios
carícias derretidas
a cada dia mais transparentes
as fragilidades das noites ausentes
riscando linhas de solidão no corpo
o amor escorrendo dos olhos
dos dedos
das ruínas de um destino
que não costuramos
não plantamos
apagando gemidos
ampliando fronteiras
até a lonjura tanta
do esquecimento da pele
desgaste da paixão
a constatação apenas
das delicadas cinzas
sopradas pelo vento
e a memória
dos cheiros
dos risos
dos lábios
suspiros:
nossa maldição


28 maio 2017

Amor é o que fica




amor é o que fica
depois que todos saem da sala
o amor acerta as cadeiras
milimetricamente
ao redor da mesa
arruma as almofadas
ajeita as flores no vaso

amor é o que fica 
depois que a canção termina
o amor recolhe as notas 
espalhadas pelo ar
guarda com as harmonias
na caixa de remédios
e os sentimentos
separados por cor nas gavetas

amor é o que fica
quando a receita favorita está pronta
o amor espalha o aroma do bolo
prepara o café
e chama todos pelos nomes
com doçura nos lábios

amor é o que fica 
quando alguém vai embora
o amor acompanha o voo
acena com a mão
e esconde a lágrima na manga da blusa

amor é o que fica

21 maio 2017

A beleza



sentamo-nos ao sol
e discursamos sobre a beleza
se está nos olhos ou nas coisas
no grandioso ou na pureza
que palavra a resume
que filósofo melhor descreve
que arte a captura
será que se esconde no íntimo
na face ou na moldura
então um pássaro cantou
acompanhamos seu voo
qual anjo no firmamento
sua mão abraçou a minha
você me olhou, eu te olhei
silenciamos por um momento
sentindo a brisa da tarde
e o tempo parado, indeciso
ouvindo nossos pensamentos
na cumplicidade de um sorriso

10 maio 2017

Por veredas


não sei dos teus percalços
sei do meu caos
e das montanhas que escalei
na solidão das noites
sem treinamento
sem equipamento

não sei dos teus enganos
sei dos meus planos
e de como se desfizeram
como lanternas de papel
em chamas
hologramas

não sei dos teus segredos
sei dos meus medos
e de como os carrego comigo
arrastando e tropeçando
por veredas
labaredas

08 maio 2017

De tanto sonhar acordou poesia


"ninguém sai de casa a menos que a casa seja a boca de um tubarão"
 (Warsan Shire)


ela bordava palavras
no céu de azul escuríssimo
para não perder os sonhos de vista
sentada à porta da casa
brincando com um ramo seco
o olhar parado a mente itinerante
remédio nem carecia
um pouquinho de dor por dia
todo mundo pode aguentar

mas os sonhos – ah os sonhos
pano de se vestir inteira
e viajar dentro da noite
escalava as silhuetas dos montes
que jamais ultrapassara
cabelos soltos ao vento
alma errante e corpo ardente
desejava ansiosamente
um dia se libertar

passou a mão bem de leve
nas marcas de sua agonia
nem raiva mais brotava
nem lágrima mais escorria
gostava de estar sozinha
beber o silêncio da noite
sentir o coração bater forte
e se o acaso lhe mudasse a sorte
veria certamente sua luz brilhar

recostada ao batente 
adormeceu encolhida
enrolada e imersa 
na profunda fantasia
...
de tanto sonhar acordou poesia


30 abril 2017

Belchior



o poeta se foi
passou a vida como pássaro
mas deixou inscrito no céu
o rasgo dos voos
a liberdade de seguir seu próprio rumo
a luz dos versos
a inconstância
o inconformismo
e a eterna juventude
contestadora
de quem no fim
para tudo sentir e ver
sabe que viver
é melhor que sonhar´
é melhor que viver


25 abril 2017

Varais Vazios

arte de Christie Repasy


esvaziam-se os estendais
recolhem-se as palavras
dobram-se os poemas
espalham-se os poetas
o sol já vai posto
esgotou-se o dia
consumiu-se a poesia

nos varais vazios
os passarinhos
fazem festa


(publicado no e-book Nos Varais - Inspiraturas Books)
aqui: http://www.inspiraturas.com/2014/02/nos-varais-inspiraturas-books.html


22 abril 2017

Do décimo andar



do décimo andar a cidade grande
espalha-se além do que cabe em meus olhos
as poucas árvores espremidas entre os prédios
tentam preservar seu pedaço de chão

da vidraça dou adeus aos que passam
apressados, embaçados, não dão conta de mim
no imenso abraço que a altura possibilita
uno a minha solidão à de todos

nós, os sem teto ou sem tessitura
translúcidos, silenciosos, solenes
seguindo rastros de miragens 
às margens de perigos imprecisos

18 abril 2017

Talento



O sol nasce para todos
Basta ficar atento
E descobrir em si mesmo
Qual é seu grande talento

10 abril 2017

Por um olhar mais doce


o olhar mais doce que existe é o olhar de um cervo
mesmo diante do caçador não perde a ternura
talvez por viver entre deusas e fadas

nós, pretensos humanos
nômades títeres

perdemos a doçura e a ternura pelos caminhos
seguimos a morte com a espada atravessada na garganta
deitamos sobre as horas com os corações petrificados
cobertos pelo manto das inutilidades
olhos fixos no breu

entre nuvens e labirintos
elaboramos tragédias
e novas maneiras de nos aniquilarmos

20 março 2017

Imigrante

Navio Aragon *

Navio Araguaya *

ninguém sorri nas fotos dos antepassados
em pose de realeza nas melhores vestes 
no papel desbotado de cor cinza azul celeste
o que se nota são olhos desamparados

a cena que reproduz fé e coragem
de deixar seu lar e atravessar o oceano
sem mapa, garantia ou melhor plano
limitados aos recursos da viagem

tem certo fascínio, ideia de aventura
tentar a sorte em um país distante
mas a realidade é de uma vida dura 
não ter a pátria e ser chamado imigrante


* - Meus antepassados por parte de pai vieram da Letônia e da Rússia para o Brasil, nesses navios ingleses a vapor, da Royal Mail Steamship Company

11 fevereiro 2017

Aviso


a única maneira de tomar parte em minha vida
é não duvidar das tempestades
carrego o dom de alimentar trovões
e incendeio florestas nos olhares

meu silêncio é uma garrafa de champanhe
sou molusco que se arrasta fora da concha
para esconder-se novamente 
e impedir que alguém me apanhe

quem aqui ousa e reside
enfrenta uma casa assombrada
onde cultuam-se dores em altares
e cozinham-se gritos na madrugada

desista de rituais e exorcismos
jamais aposte em minha cura
cuide apenas de não enlouquecer
tentando entender minha loucura

28 janeiro 2017

Quando éramos humanos

foto de Sebastião Salgado


quando éramos humanos
eu consultava a lua
sobre nossas almas perdidas
na hora da ceia imperava respeito
pelo vinho e pela carne
percorria-se a solidão em alta velocidade
e nada era escrito 
já que tudo estava nos olhos

éramos bons e gentis quando humanos
as manhãs acordavam presságios de liberdade
o amor transitava satisfeito e dono de si
os espelhos sorriam à nossa passagem
e os milagres chegavam a horas marcadas

quando éramos humanos
bastava um aceno de mão 
para acender o arco-íris
e era sempre verão
com direito a brisa marítima 
quindins, céu azul e ginga no andar

éramos pacíficos e abnegados quando humanos
as crianças adormeciam satisfeitas
das brincadeiras e festividades
não se perdia o tempo
pois era sempre presente
suficiente para fazer valer o dia
e no silêncio das montanhas
guardávamos as rezas e o caminho das estrelas

naquele tempo não havia o ofício de poeta
entre nascer e morrer
poetas éramos todos


06 janeiro 2017

Abandono


porque poesia me deixaste 
sem o mel das manhãs
porque não me entregaste
a solidão das estrelas
porque não incendiaste
meu coração de música
e meus olhos de rosas
e minhas mãos de loucuras
porque te busquei 
nos campos de ventos
onde pássaros imensos
formam sombras sinistras
porque na insone escuridão
não vieste sentar à beira da cama
para contar as histórias que já sei
foram esses motivos todos
e mais uns tantos pelo mundo deitados
que estancaram a magia e o sopro amoroso
e até que o mar traga de volta seus murmúrios
em doces sonatas ou heroicas sinfonias
recolho flores para arranjos
acaricio a dança das nuvens
deito-me sob árvores sábias
analiso a geometria da luz
e inundo de luar a folha em branco
que aguarda impacientemente
a palavra



17 dezembro 2016

Tudo isso é nada


recomenda-se cautela ao manusear um cacto
como se deve ter ao tocar um coração ferido
pois em meio a tanta secura 
ainda pode surgir exótica flor
aconselham-se voos intermitentes
ao país das utopias
para preservar o sonho
a sanidade e um pouco de alegria
sugere-se branqueamento dos dentes
para não dar ao sorriso o aspecto amarelado
que poderia indicar deboche desacato ou insensatez
tantos cuidados exige a vida 
com o fogo com a água com o gelo
olhar onde pisa pensar no que fala
rezar para algum deus e acreditar no impossível
e para que o arrependimento
não venha a ser teu sudário no fim
lembram a todo momento
que não tenhas medo apego ou aflição
pois tudo isso é nada 
e o nada termina assim
seremos um dia lembrança retrato ou herança
debaixo da terra ou soprados no vento
como pó-de-pirlimpimpim


08 dezembro 2016

O meio não tem fim



fluir como o rio
o rio não tem fim
até alcançar o mar
o mar não tem fim
plantar árvores
para dependurar as dores
as árvores não têm fim
as dores não têm fim
as raízes penetram nas veias
urdindo cortando 
delineando barcos
e os barcos vão 
pelos fins pelos meios
não há cais não há pousos
lembranças sem fim
os antepassados nos observam
de seus retiros
a vida não tem fim

01 dezembro 2016

Todos os homens são sós


todos os homens são sós
ainda que o espelho da pele
revele a ausência de luar
ainda que o silêncio dos copos vazios
preencha a escuridão de segredos
no equívoco dos sentidos
pensam dividir o barco a casa o corpo
tudo não passa de fenômeno
delírio de buscar a luz
no frêmito de um girassol
que ao final do dia
tomba desconcertado

todos os homens são sós
fantasmas amaldiçoados
que não seguem nem conduzem
apenas perambulam a vida
em busca de si mesmos



16 novembro 2016

Cautelosamente


segue cautelosamente a vida
mede cada passo e cada fuga
recorta as sombras e faz delas origamis
fecha a ansiedade em quarto escuro
sem pão e sem água
guarda só a memória dos retratos onde dorme o azul
molda com asas pensamentos e poemas
e esquece a lucidez em translúcidas loucuras
para que a torrente das aflições não tatue tuas máscaras
para que não te percas no labirinto dos mil touros famintos
para que tua casa receba o tempo com alegria



30 outubro 2016

Última página


foto de Isabel Mansfeld

chamavam-se festas
e se prestasse atenção 
podia ver cadáveres
escorrendo pelas frestas 
cumprindo o caminho da gravidade
comprimindo as pedras

chamavam-se dias belos 
e se prestasse atenção 
havia frio nos olhares
como se os rigores do inverno
tivessem perdido as datas
instalando-se nos homens

chamavam-se poetas e deuses
e se prestasse atenção
veria espectros a rondar na sombra
a verdade a ancorar nas almas
estranhamente à vontade
como quem retorna ao lar