20 junho 2017

Letargia


da vertigem que me dão os sonhos inacabados
faço presente o dia que amanhece
levanto da cama minha cota de carbono
para que o tempo aos poucos esmoreça
a carne os desenganos as convicções
amando quanto posso
desvencilhando-me do que não posso
enfrento as ilusões do mundo
devo ter um chip implantado
que me conduz interminavelmente
a todas as questões filosóficas
quando poderia simplesmente
abraçar a vida sem fazer perguntas
lavar a louça e espanar o pó


05 junho 2017

Líquido e frágil

arte de Gaylord Ho

consumimos o tempo que nos foi dado no amor
como bala que se estilhaça entre os dentes
em vez de sorver vagarosamente o sumo
o beijo
o desejo
a vontade de devorar e habitar
alucinados
intoxicados
esquecemos de semear
os delírios
os sussurros
e os dias avançaram em deserto
ferrugem e vazios
carícias derretidas
a cada dia mais transparentes
as fragilidades das noites ausentes
riscando linhas de solidão no corpo
o amor escorrendo dos olhos
dos dedos
das ruínas de um destino
que não costuramos
não plantamos
apagando gemidos
ampliando fronteiras
até a lonjura tanta
do esquecimento da pele
desgaste da paixão
a constatação apenas
das delicadas cinzas
sopradas pelo vento
e a memória
dos cheiros
dos risos
dos lábios
suspiros:
nossa maldição


28 maio 2017

Amor é o que fica




amor é o que fica
depois que todos saem da sala
o amor acerta as cadeiras
milimetricamente
ao redor da mesa
arruma as almofadas
ajeita as flores no vaso

amor é o que fica 
depois que a canção termina
o amor recolhe as notas 
espalhadas pelo ar
guarda com as harmonias
na caixa de remédios
e os sentimentos
separados por cor nas gavetas

amor é o que fica
quando a receita favorita está pronta
o amor espalha o aroma do bolo
prepara o café
e chama todos pelos nomes
com doçura nos lábios

amor é o que fica 
quando alguém vai embora
o amor acompanha o voo
acena com a mão
e esconde a lágrima na manga da blusa

amor é o que fica

21 maio 2017

A beleza



sentamo-nos ao sol
e discursamos sobre a beleza
se está nos olhos ou nas coisas
no grandioso ou na pureza
que palavra a resume
que filósofo melhor descreve
que arte a captura
será que se esconde no íntimo
na face ou na moldura
então um pássaro cantou
acompanhamos seu voo
qual anjo no firmamento
sua mão abraçou a minha
você me olhou, eu te olhei
silenciamos por um momento
sentindo a brisa da tarde
e o tempo parado, indeciso
ouvindo nossos pensamentos
na cumplicidade de um sorriso

10 maio 2017

Por veredas


não sei dos teus percalços
sei do meu caos
e das montanhas que escalei
na solidão das noites
sem treinamento
sem equipamento

não sei dos teus enganos
sei dos meus planos
e de como se desfizeram
como lanternas de papel
em chamas
hologramas

não sei dos teus segredos
sei dos meus medos
e de como os carrego comigo
arrastando e tropeçando
por veredas
labaredas

08 maio 2017

De tanto sonhar acordou poesia


"ninguém sai de casa a menos que a casa seja a boca de um tubarão"
 (Warsan Shire)


ela bordava palavras
no céu de azul escuríssimo
para não perder os sonhos de vista
sentada à porta da casa
brincando com um ramo seco
o olhar parado a mente itinerante
remédio nem carecia
um pouquinho de dor por dia
todo mundo pode aguentar

mas os sonhos – ah os sonhos
pano de se vestir inteira
e viajar dentro da noite
escalava as silhuetas dos montes
que jamais ultrapassara
cabelos soltos ao vento
alma errante e corpo ardente
desejava ansiosamente
um dia se libertar

passou a mão bem de leve
nas marcas de sua agonia
nem raiva mais brotava
nem lágrima mais escorria
gostava de estar sozinha
beber o silêncio da noite
sentir o coração bater forte
e se o acaso lhe mudasse a sorte
veria certamente sua luz brilhar

recostada ao batente 
adormeceu encolhida
enrolada e imersa 
na profunda fantasia
...
de tanto sonhar acordou poesia


30 abril 2017

Belchior



o poeta se foi
passou a vida como pássaro
mas deixou inscrito no céu
o rasgo dos voos
a liberdade de seguir seu próprio rumo
a luz dos versos
a inconstância
o inconformismo
e a eterna juventude
contestadora
de quem no fim
para tudo sentir e ver
sabe que viver
é melhor que sonhar´
é melhor que viver


25 abril 2017

Varais Vazios

arte de Christie Repasy


esvaziam-se os estendais
recolhem-se as palavras
dobram-se os poemas
espalham-se os poetas
o sol já vai posto
esgotou-se o dia
consumiu-se a poesia

nos varais vazios
os passarinhos
fazem festa


(publicado no e-book Nos Varais - Inspiraturas Books)
aqui: http://www.inspiraturas.com/2014/02/nos-varais-inspiraturas-books.html


22 abril 2017

Do décimo andar



do décimo andar a cidade grande
espalha-se além do que cabe em meus olhos
as poucas árvores espremidas entre os prédios
tentam preservar seu pedaço de chão

da vidraça dou adeus aos que passam
apressados, embaçados, não dão conta de mim
no imenso abraço que a altura possibilita
uno a minha solidão à de todos

nós, os sem teto ou sem tessitura
translúcidos, silenciosos, solenes
seguindo rastros de miragens 
às margens de perigos imprecisos

18 abril 2017

Talento



O sol nasce para todos
Basta ficar atento
E descobrir em si mesmo
Qual é seu grande talento

10 abril 2017

Por um olhar mais doce


o olhar mais doce que existe é o olhar de um cervo
mesmo diante do caçador não perde a ternura
talvez por viver entre deusas e fadas

nós, pretensos humanos
nômades títeres

perdemos a doçura e a ternura pelos caminhos
seguimos a morte com a espada atravessada na garganta
deitamos sobre as horas com os corações petrificados
cobertos pelo manto das inutilidades
olhos fixos no breu

entre nuvens e labirintos
elaboramos tragédias
e novas maneiras de nos aniquilarmos

20 março 2017

Imigrante

Navio Aragon *

Navio Araguaya *

ninguém sorri nas fotos dos antepassados
em pose de realeza nas melhores vestes 
no papel desbotado de cor cinza azul celeste
o que se nota são olhos desamparados

a cena que reproduz fé e coragem
de deixar seu lar e atravessar o oceano
sem mapa, garantia ou melhor plano
limitados aos recursos da viagem

tem certo fascínio, ideia de aventura
tentar a sorte em um país distante
mas a realidade é de uma vida dura 
não ter a pátria e ser chamado imigrante


* - Meus antepassados por parte de pai vieram da Letônia e da Rússia para o Brasil, nesses navios ingleses a vapor, da Royal Mail Steamship Company

11 fevereiro 2017

Aviso


a única maneira de tomar parte em minha vida
é não duvidar das tempestades
carrego o dom de alimentar trovões
e incendeio florestas nos olhares

meu silêncio é uma garrafa de champanhe
sou molusco que se arrasta fora da concha
para esconder-se novamente 
e impedir que alguém me apanhe

quem aqui ousa e reside
enfrenta uma casa assombrada
onde cultuam-se dores em altares
e cozinham-se gritos na madrugada

desista de rituais e exorcismos
jamais aposte em minha cura
cuide apenas de não enlouquecer
tentando entender minha loucura

28 janeiro 2017

Quando éramos humanos

foto de Sebastião Salgado


quando éramos humanos
eu consultava a lua
sobre nossas almas perdidas
na hora da ceia imperava respeito
pelo vinho e pela carne
percorria-se a solidão em alta velocidade
e nada era escrito 
já que tudo estava nos olhos

éramos bons e gentis quando humanos
as manhãs acordavam presságios de liberdade
o amor transitava satisfeito e dono de si
os espelhos sorriam à nossa passagem
e os milagres chegavam a horas marcadas

quando éramos humanos
bastava um aceno de mão 
para acender o arco-íris
e era sempre verão
com direito a brisa marítima 
quindins, céu azul e ginga no andar

éramos pacíficos e abnegados quando humanos
as crianças adormeciam satisfeitas
das brincadeiras e festividades
não se perdia o tempo
pois era sempre presente
suficiente para fazer valer o dia
e no silêncio das montanhas
guardávamos as rezas e o caminho das estrelas

naquele tempo não havia o ofício de poeta
entre nascer e morrer
poetas éramos todos


06 janeiro 2017

Abandono


porque poesia me deixaste 
sem o mel das manhãs
porque não me entregaste
a solidão das estrelas
porque não incendiaste
meu coração de música
e meus olhos de rosas
e minhas mãos de loucuras
porque te busquei 
nos campos de ventos
onde pássaros imensos
formam sombras sinistras
porque na insone escuridão
não vieste sentar à beira da cama
para contar as histórias que já sei
foram esses motivos todos
e mais uns tantos pelo mundo deitados
que estancaram a magia e o sopro amoroso
e até que o mar traga de volta seus murmúrios
em doces sonatas ou heroicas sinfonias
recolho flores para arranjos
acaricio a dança das nuvens
deito-me sob árvores sábias
analiso a geometria da luz
e inundo de luar a folha em branco
que aguarda impacientemente
a palavra



17 dezembro 2016

Tudo isso é nada


recomenda-se cautela ao manusear um cacto
como se deve ter ao tocar um coração ferido
pois em meio a tanta secura 
ainda pode surgir exótica flor
aconselham-se voos intermitentes
ao país das utopias
para preservar o sonho
a sanidade e um pouco de alegria
sugere-se branqueamento dos dentes
para não dar ao sorriso o aspecto amarelado
que poderia indicar deboche desacato ou insensatez
tantos cuidados exige a vida 
com o fogo com a água com o gelo
olhar onde pisa pensar no que fala
rezar para algum deus e acreditar no impossível
e para que o arrependimento
não venha a ser teu sudário no fim
lembram a todo momento
que não tenhas medo apego ou aflição
pois tudo isso é nada 
e o nada termina assim
seremos um dia lembrança retrato ou herança
debaixo da terra ou soprados no vento
como pó-de-pirlimpimpim


08 dezembro 2016

O meio não tem fim



fluir como o rio
o rio não tem fim
até alcançar o mar
o mar não tem fim
plantar árvores
para dependurar as dores
as árvores não têm fim
as dores não têm fim
as raízes penetram nas veias
urdindo cortando 
delineando barcos
e os barcos vão 
pelos fins pelos meios
não há cais não há pousos
lembranças sem fim
os antepassados nos observam
de seus retiros
a vida não tem fim

01 dezembro 2016

Todos os homens são sós


todos os homens são sós
ainda que o espelho da pele
revele a ausência de luar
ainda que o silêncio dos copos vazios
preencha a escuridão de segredos
no equívoco dos sentidos
pensam dividir o barco a casa o corpo
tudo não passa de fenômeno
delírio de buscar a luz
no frêmito de um girassol
que ao final do dia
tomba desconcertado

todos os homens são sós
fantasmas amaldiçoados
que não seguem nem conduzem
apenas perambulam a vida
em busca de si mesmos



16 novembro 2016

Cautelosamente


segue cautelosamente a vida
mede cada passo e cada fuga
recorta as sombras e faz delas origamis
fecha a ansiedade em quarto escuro
sem pão e sem água
guarda só a memória dos retratos onde dorme o azul
molda com asas pensamentos e poemas
e esquece a lucidez em translúcidas loucuras
para que a torrente das aflições não tatue tuas máscaras
para que não te percas no labirinto dos mil touros famintos
para que tua casa receba o tempo com alegria



30 outubro 2016

Última página


foto de Isabel Mansfeld

chamavam-se festas
e se prestasse atenção 
podia ver cadáveres
escorrendo pelas frestas 
cumprindo o caminho da gravidade
comprimindo as pedras

chamavam-se dias belos 
e se prestasse atenção 
havia frio nos olhares
como se os rigores do inverno
tivessem perdido as datas
instalando-se nos homens

chamavam-se poetas e deuses
e se prestasse atenção
veria espectros a rondar na sombra
a verdade a ancorar nas almas
estranhamente à vontade
como quem retorna ao lar


28 outubro 2016

Por onde ando nos sonhos


por onde ando nos sonhos
entre grandes aventuras
e a solidão das coisas pequenas
tudo me pertence:
os segredos
os bordados na pele
as alturas de onde caio
as estradas que se repetem
as casas onde os fantasmas festejam

não sofro de insônias
mas de excessos oníricos
poderia escrever um livro sobre eles
talvez um dicionário
ou um guia de turismo

pena serem apenas sonhos
que na extremidade do dia
apagam-se
pena serem somente
essas viagens clandestinas
sempre só de ida
pena eu sempre esquecer
de levar a máquina fotográfica


10 outubro 2016

O que me assusta


o que me assusta é a inércia
o medo e a desconsideração
a dor que alimenta e endurece o casco
a multidão de olhos grudados na cena do crime
a hipocrisia a artimanha a privação
mazelas que crescem na alma
e vomitam como um vulcão
homens que se pensam deuses
discurso reles e infecundo
a carne fraca a solidão
o que me assusta e devora
é a lucidez da minha carente humanidade
e a ignorância da minha exata condição
busco o céu em seu azul profundo
e pergunto à imensidão
quanto há em mim da maldade do mundo?
- não ouço resposta mas peço perdão


18 setembro 2016

Setembro


tudo que resta é o sonho
neste imenso setembro de espera
tudo que é vida ainda pulsa
neste intenso compasso
aflitivo
no espaço
de pré-primavera
tudo que é armadilha flutua
no suspenso cansaço
incisivo
estilhaço
que o amor destempera

04 setembro 2016

Lástima



perdemos as palavras que amparavam nossas paisagens mais ricas
e adotamos o disfarce das fotografias amareladas de domingos
que lástima ter de esperar o futuro para saber como termina este filme


28 agosto 2016

Minas Gerais

foto de Helenice Priedols

andei pelas bandas de Minas
por montes, montanhas, colinas
imersa em verde total
sobre azul angelical
andei limpando as retinas
nas paisagens europeias
das aldeias mantiqueiras
purificando pensamentos
em banhos de cachoeira
andei me fartando de trutas
pão de queijo, doce de leite
quanta paz, quanto deleite
minha alma se refez
tudo lá é bom demais
se Deus quiser e ajudar
um dia eu mudo de vez
lá pras bandas das Gerais 


30 julho 2016

Ainda que sóis


aqui estamos nós
ainda que sós
com um passado no bolso
e estrelas no olhar
essa estrada é nossa
o destino acena de longe
e nossas almas assobiam 
a mesma canção

aqui vamos nós
sem band-aid no coração
sem reservas 
sem domínios
no avesso dos caminhos
que a vigília desatenciosa
mostrou como certos
o amor acende 
as palavras que reinarão
acima de todas as mentiras

aqui somos nós
nossas dores
nossa casa
nossa dança
de mãos dadas
ainda que sós
ainda que sóis



18 junho 2016

João e a montanha



no topo do mundo
tudo é vasto, sagrado, profundo
no topo do mundo
as asas saltam, arremedo de voo
no topo do mundo
somos tão pequenos e tão grandes
os horizontes se alargam
a luz é plena
o coração dilata
a veia queima
o vento serpenteia
a verve arde
os sons invadem
a paz é tema

31 maio 2016

Assim seja



que seja o mar a levar as dores
que seja a pétala a amparar a rosa
e o pretendido gesto de esperança
venha sem receio e sem moldura
no deserto das renúncias

da imensidão lisa e transparente como um vidro
venha o hálito bom do futuro
trazido no sol das manhãs
e plantado em jardins clandestinos

que seja colhido o lótus do amor
na sombra que morre quando a luz invade
e seja abismo o portal da ousadia
do querer bem e fazer o bem

que a poeira do tempo recolha a âncora da verdade
e arranhe intrepidamente a cegueira do silêncio
e que seja manso o despertar das palavras
a embalar as almas em sedas multicores

depois que a pele perdeu o dom dos arrepios
nada mais surpreende
a não ser a beleza: sempre

que as mãos nos guiem tateando nuvens e sonhos
hipnoticamente levados pelos poemas das faces
que sejamos todos infantes na candura
a soprar aleluias aos cálidos ventos da arte

que seja perpétuo o homem a ressurgir de seus cansaços

10 maio 2016

Sobre viventes



é preciso mais
que a primeira luz da manhã
tocando o alto da colina
para secar a lágrima
dos que só veem o vazio no horizonte

é preciso mais
que olhos atentos e mãos amigas
para aqueles que o mar entrega

há vidas como fiapos
esparramados pelo vento
à própria sorte
há vidas como a minha e a sua
só que mais tênues
há vidas como fiapos
desenrolados do novelo
desfiados da trama

muitas vidas se perderam
mas ainda há vidas...

a vida é um cristal finíssimo
que tilinta sob mãos maestras
e se espatifa à força bruta

para que a esperança retorne
é preciso mais do que somente compadecer-se
é preciso estar lá, estender a mão, abraçar, acolher
é preciso ser um deles serem um de nós

bastaria um gesto generoso de portas abertas
porque temos de cair sempre de pé
ignorar as dores e construir um novo tempo

é preciso continuar, bater de porta em porta
se for preciso, gritar: HÁ VIDAS!

mas há arames, esmolas, desconfiança
a casa ficou, a cidade ficou, tudo foi deixado para trás
porque o medo de ficar foi maior do que o medo de partir
a angústia brilha como relâmpago no céu
o passado aperta no sapato 
e há arames, esmolas, desconfiança

somos indiferentes à fragilidade das borboletas
pesa em todos nós a indiferença das fronteiras
pesa em nós todas as mazelas
dos que sobrevivem
entre a bomba e o não



06 maio 2016

Das guerras



duas mãos cerram os punhos em guerra
duas mãos empunham armas
duas mães se desesperam
duas mães velam seus mortos
duas mãos assinam paz fictícia
dois lados carregam para sempre seus pesares

… o mundo gira a vida segue

as crianças da guerra nascem crescem
as crianças da guerra vítimas do estupro e da dor
nascem crescem e conhecem a história da guerra
um dia cerram os punhos
em guerra
matam estupram tiranizam
as mãos as mães nada podem contra a bestialidade
mãos e mães não têm sentido na guerra
nada tem sentido na guerra

uma termina
começa outra

... e assim caminha a desumanidade